07/02/2010

Significado e Necessidade da Oração – Mahatma Gandhi


Estou contente por desejarem que lhes fale sobre o significado e a necessidade da oração. Acredito que a prece seja a alma e a essência da religião e que deve, portanto, ser o centro da vida humana, pois o homem algum pode viver sem religião. Há alguns que, em seu egotismo racional, afirmam que não têm nada a ver com ela. É o mesmo que alguém afirmar que respira, mas não tem nariz;
Passo agora ao segundo aspecto, que estabelece ser a oração o centro da vida humana e a parte mais vital da profissão de fé. A prece tanto pode ser um pedido como, em seu sentido mais amplo, uma comunhão interior. Em ambos os casos o resultado final é idêntico. Mesmo quando se trata de uma súplica, esta deve pedir a limpeza e a purificação da alma, e sua libertação dos entraves da ignorância e do obscurantismo que a envolvem. Aquele que está faminto pelo despertar divino em si mesmo deve recolher-se em oração. Contudo, esta não é um mero exercício de palavras ditas ou ouvidas; não é uma mera repetição de fórmulas vazias.
Numa prece, é melhor que haja um coração sem palavras do que palavras sem coração. A prece deve constituir-se numa resposta clara ao espírito faminto por ela. Tal como um homem com fome se compraz com um alimento saboroso, uma alma que tem fome se compraz numa prece sincera. Estou lhes transmitindo um pouco da experiência, minha e de meus companheiros, quando digo que aquele que experimentou a magia da oração pode atravessar vários dias sem alimento, mas nem um momento sequer sem orar. Porque sem isso não há paz interior.
Falei da necessidade da oração e depois abordei sua essência. Nascemos para servir a nossos semelhantes e não podemos fazê-lo satisfatoriamente se não estivermos bem despertos. Na eterna luta que assola o coração humano, travada entre os poderes da ignorância e os da luz, aquele que não possui a âncora mestra da oração será vítima dos poderes da obscuridade. O homem que ora estará em paz consigo mesmo e com o mundo todo, enquanto que aquele que perambula pelas ocupações mundanas, será um infeliz e fará o mundo também infeliz. Portanto, além do significado que tem para a condição humana post-mortem, a oração é de um valor inestimável para o homem, neste mundo dos vivos. É o único meio de dar ordem, paz e repouso às nossas ações cotidianas. Nós, moradores do ashram, que viemos para cá em busca da verdade e para persistirmos nela, professávamos a crença na eficácia da prece, embora nunca, até agora, a tivéssemos transformado numa questão vital. Não lhes dedicávamos à mesma atenção que aos outros assuntos. Despertei certo dia desse entorpecimento e percebi que tinha sido desgraçadamente negligente para com meu dever nesse aspecto. Sugeri assim rígidas medidas disciplinares – é preciso que façamos o melhor, para que o pior seja evitado; cuidemos do que é vital e o restante cuidará de si próprio. Se endireitarmos um dos lados de um quadrado, os demais ângulos se endireitarão.
Comecem seu dia com uma prece, fazendo-a de modo tão profundo que ela os acompanhe até a noite. Encerrem o dia com uma oração, para que tenham uma noite serena, livre de sonhos e de pesadelos. Não se preocupem com a sua forma. Deixem que tome qualquer uma, desde que os coloque em comunhão com o divino. Porém, seja a forma qual for não permitam que o espírito vague enquanto as palavras da prece vão sendo pronunciadas.
Se forem tocados pelo que eu disse, não sentirão paz enquanto não tiverem feito com que os supervisores de seus alojamentos se empenhem na prece até converterem-na numa prática obrigatória. Restrições auto-impostas não significam uma coerção. O homem que escolhe o caminho da não-restrição, isto é, a vida da auto-indulgência será um escravo das paixões, ao passo que aquele que limita a si mesmo com regras e restrições se liberta. Tudo o que há no universo, incluindo o sol, a lua e as estrelas obedecem a certas leis. Sem essa influência restritiva o mundo não se manteria nem por um instante. Vocês, cuja missão na vida é servir a seus semelhantes, se dilacerarão se não se auto-impuserem algum tipo de disciplina, e a prece é uma disciplina espiritual necessária. A disciplina e as restrições nos diferenciam dos brutos. Se quisermos ser humanos, caminhando de cabeça erguida e não em quatro pés, é preciso que compreendamos e nos coloquemos sob uma disciplina e restrição voluntárias.
Young India, 23/01/1930 - Revista Solstix e Equinox

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